Carlos Cruz vê o seu regresso à televisão “como uma impossibilidade”. Em entrevista a Fátima Lopes, na TVI, o comunicador, condenado no caso Casa Pia, reconhece que é “preciso coragem” para convidá-lo a regressar à televisão. Mas se isso acontecesse, não hesitava.
“Vejo o meu regresso à televisão como uma impossibilidade. O mercado de trabalho quer gente jovem e este peso que tenho em cima de mim inibe as pessoas de me convidar. As pessoas têm medo das reações. É preciso coragem”, afirmou este sábado no programa “Conta-me como És”, exibido pela TVI.
Numa entrevista emotiva, em que se ouviram depoimentos das ex-mulheres Marluce e Raquel Rocheta, das filhas Marta e Mariana, das netas e de vários amigos. Carlos Cruz, 76 anos, afirmou-se um homem tranquilo, mas recordou o terramoto vivido desde 2003, quando, a 1 de fevereiro, foi detido em Quarteira, no Algarve, acusado de abuso sexual a menores.
“Sabes quando há um terramoto e não se consegue fazer nada? Senti uma grande revolta, mais pela incapacidade de convencer as pessoas da verdade”, explicou Carlos Cruz a Fátima Lopes. “A partir do momento em que fui conhecendo o processo, e sabendo do que tinha acontecido, fui ganhando uma grande serenidade”, acrescentou. Foi ela, disse, que lhe permitiu “chegar até aqui”.
O antigo apresentador falou das injustiças de que foi alvo. Mas deixou claro o seu estado de alma. “Não tenho rancores, não tenho ódios. Custou-me a chegar a este estado. Analiso-me muito e gosto muito de mim. É a primeira condição para estarmos bem com os outros. Estou muito calmo, muito sereno. Atravesso a vida à bolina, ao sabor do vento. Não há nada que me irrite, nem as pessoas”.
Na entrevista à TVI, Carlos Cruz recordou Marluce e Raquel Rocheta, duas mulheres que continuam hoje a ser grandes amigas. De Raquel, com quem vivia no momento em que estalou o caso de pedofilia, disse que “foi uma das grandes vítimas do processo Casa Pia”.
“Foi uma das minhas grandes paixões. Uma paixão de caixão à cova, como se costuma dizer. Foi uma das grandes vítimas do processo Casa Pia. Pelo que sofreu, pelo apoio que me deu e, portanto, pelos sacrifícios que teve de fazer para me apoiar, ainda por cima com a Mariana muito pequena, com dez meses”, sublinhou, acrescentando que “é uma mulher fantástica”, ao lado da qual viveu “anos muito felizes”.
Tendo superado dois cancros, o último dos quais no ano passado, Carlos Cruz sempre teve uma relação “fria” com a doença.
“As pessoas acham que eu seja muito frio perante a doença. Aceite a situação. Quando as coisas são inevitáveis, não podemos fazer nada. Só não aceito aquilo que não é justo”, disse.
Garantindo que nunca se sentiu o ‘Senhor Televisão’, Carlos Cruz agradece o epíteto. “Nunca me senti assim, mas é agradável, não sou tão modesto quanto isso. Lido bem com isso”, enfatizou, recordando que “era um workaholic”, talvez por isso hoje lhe “custe tanto estar parado”.
Apresentador do célebre “1,2,3”, autor e produtor de muitos outros programas, Carlos Cruz olhou para trás nesta entrevista. “Fui muito bom patrão e muito mau empresário. Isto quer dizer que perdi muito dinheiro como produtor. E quando deixei de ter encomendas, eu tinha uma equipa de 70 pessoas e mantive-os um ano a pagar ordenados e subsídios de férias e de natal”.
E acrescentou: “Sofri muito quando tive de despedir pessoas. Passei muitas noites sem dormir a pensar no discurso que ia ter e a pensar como ia ser a vida destas pessoas”.
Continuando a lutar pela prova da sua inocência, Carlos Cruz explicou que vai pedir a revisão da sentença do processo, para ser julgado outra vez. “Quero que a verdade seja provada”. Isto apesar de já ter cumprido a sua pena.
Ainda assim, deixou claro: “Sou um homem de perdões. Não esqueço, mas perdoo”, concluiu.
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TEXTO: Nuno Azinheira