As memórias da jornalista da RTP que leu o comunicado do MFA: “A entrada das tropas foi um choque, mas não tive medo”

Manuela de Melo foi acordada pelo telefonema de uma amiga na madrugada do 25 de Abril de 1974 e correu para os estúdios do Monte da Virgem, no Porto. No Lumiar, a RTP tinha sido ocupada de madrugada, mas só às 18.40 é que Fialho Gouveia e Fernando Balsinha apresentaram o “Telejornal”.

“Foi um dia fora do mundo. Tão espantoso! Diferente de tudo. Era uma realidade mágica…” Estes são “sentimentos mesclados” que Manuela de Melo guarda na memória do 25 de Abril de 1974. Era jornalista da RTP e no dia da revolução, a partir dos estúdio do Monte da Virgem, no Porto, leu um comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA), no “Telejornal” da noite.

Manuela de Melo conta que dormia a sono solto quando o telefone tocou e, do outro lado, uma voz conhecida, mas um tanto ou quanto alarmada, lhe disse que algo se passava em Lisboa. “Era ainda de madrugada. A minha amiga falava-me que alguma coisa estava a acontecer. Não sabia bem o que era, só tinha ouvido o nome de Spínola”, recorda.

A jornalista saltou da cama, tomou um duche rápido, vestiu-se a correr e foi para a RTP. “Antes ainda liguei para alguns amigos e passei na Clara de Resende, a escola secundária onde dava aulas de Ciências Naturais e Geografia. Havia uma certa confusão e as aulas estavam suspensas. Segui depois para os estúdios do Monte da Virgem”, relata.

Quando aí chegou, deparou-se com um ambiente calmo e controlado pelo diretor do centro de Produção e Informação do Porto, o professor Abranches Soveral. “Era fiel ao Estado Novo. Manteve-se firme e não dobrou”, conta Manuela de Melo. A emissão prosseguia normalmente com o Ciclo Preparatório TV (Telescola) e apenas algumas breves interrupções. “O Fernando Pinheiro era o locutor que estava de serviço do alinhamento nesse dia”, assevera.

Pelas 16.00, tudo se alterou. “Os comando de Lamego, que tinham sido desviados para o emissor do Rádio Clube Português, em Miramar, entraram nas instalações da RTP. Foi um choque, mas não tive medo e senti uma calma inacreditável”, sublinha a antiga jornalista, que não se lembra de “grande tensão” no centro de produção do Porto, mas conta que “os dois GNR que estavam de serviço, mal viram as tropas foram-se embora e até deixaram as armas”.

Outro episódio desse momento teve uma mulher como protagonista. “Já não me lembro ao certo, se era uma senhora da limpeza ou uma empregada da cantina. Apenas me recordo que ao ver os militares desatou aos gritos”, diz.

Fialho Gouveia e Fernando Balsinha em Lisboa

Já com a RTP, no Porto, ocupada pelos militares, Manuela de Melo só tinha uma preocupação. “Queria saber o que é que conseguia pôr no ar. As comunicações naquele tempo não são como as de hoje. Não conseguia falar com ninguém. Cortaram os fios dos telefones do quartel-general e só nos dias seguintes é que conseguimos uma ligação.” Desesperava também por informações de Lisboa. “Provavelmente terei falado com alguém, o Fialho Gouveia ou o Fernando Balsinha. Infelizmente dos três, só resto eu”, lamenta.

Em Lisboa, o MFA tinha tomado de madrugada os estúdios da RTP, no Lumiar. No entanto, o emissor de Monsanto, que servia Lisboa, foi controlado pelos serviços de segurança afetos ao anterior regime. E por isso houve um impasse. “Só ao fim da tarde é que Monsanto ficou operacional e o Lumiar tomou o pulso das operações”, revela Manuela de Melo.

Ao contrário do Porto, onde estavam apenas meia dúzia de profissionais, em Lisboa eram 25. Entre eles, Fialho Gouveia, que leu os comunicados do MFA, e Fernando Balsinha, além do realizador Alfredo Tropa e alguns técnicos de som e de imagem. O Telejornal teve uma emissão especial com um compacto das notícias do dia. Manuela de Melo nunca mais esqueceu “que essa edição foi para o ar às 18.40 com Fernando Balsinha e José Fialho Gouveia”. O jornal incluía uma reportagem de rua, mostrando os acontecimentos decisivos no Largo do Carmo ao final da tarde, e que levaram ao fim do regime fascista.

Depois do bloco informativo, o general António Spínola leu a proclamação ao País da Junta de Salvação Nacional, que assumia o compromisso de garantir a sobrevivência da Nação como Pátria soberana no seu todo pluricontinental. A emissão da RTP não encerrou, como era habitual, às 23.40, com Meditação e Fecho, mas foi assegurada até ao dia 26 de abril.

Telefonou ao pai, que era republicano

Manuela de Melo também permaneceu nas instalações do Monte da Virgem até altas horas. Estava com 29 anos e tinha um filho de três. “Nesse dia não estava comigo no Porto, o que me facilitou, porque a emissão terminou de madrugada. Lembro-me de ter telefonado ao meu pai, que era um velho republicano e estava muito entusiasmado”, diz.

Como se alimentou no dia 25 de Abril é algo de que não se recorda. “Tínhamos uma cantina no Monte da Virgem. Devo lá ter passado para comer alguma coisa…”, avança a então jornalista, que desde 16 de setembro de 1973 estava na Informação. “Antes colaborava no Telejornal, era o atual recibo verde”, brinca. A emissão do dia 25 de Abril de 1974, apenas a viu uma vez e ao fim de 40 anos, no passado dia 16, em Lisboa. “Não me reconheci. Foi uma situação curiosa”, confidencia.

Manuela de Melo rescindiu contrato com a RTP em 2002, depois “de em janeiro de 1990 ter pedido requisição” para assumir funções de vereadora da Cultura na Câmara Municipal do Porto. Foi deputada do PS e hoje está afastada da vida política.

TEXTO: Filomena Araújo

Artigo originalmente publicado na edição impressa da “Notícias TV” de 25 de abril de 2014.

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