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Entrevista a Nuno Galopim nos 100 anos de Amália: “Gravámos o documentário da RTP em confinamento”

Fotografias: Facebook Nuno Galopim

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No dia em que se assinalam os 100 anos do nascimento da artista, a N-TV entrevistou Nuno Galopim que, com Miguel Pimenta, fizeram o documentário “Eu, Amália”, que passa esta noite na RTP.

Que principais desafios encontrou para fazer este trabalho sobre a Amália?

Sendo um documentário unicamente feito de recolha de material nos arquivos de televisão e de rádio da RTP o primeiro desafio que enfrentámos foi o de perceber se, entre as reportagens, entrevistas e participações de Amália em programas, desde os anos 50 até ao fim da sua vida, haveria as peças necessárias para, através da sua própria voz, criar um puzzle que contasse uma história com um arco narrativo sólido. Foi preciso escutar e ver o que havia, anotando o que Amália dizia e o que as imagens mostravam. O desafio seguinte foi o de concretizar o projeto em confinamento. A equipa da Inovação RTP e RTP Memória está confinamento desde março e assim cada um trabalhou em sua casa. Foi precioso criar uma plataforma de gestão de media para podermos receber material de arquivo, ver, escutar, editar e depois juntar grafismo e tratar o áudio e a imagem…

O que quis mostrar aos telespectadores?

Mais do que uma biografia quis mostrar a personalidade (e enorme inteligência) de Amália e o modo como a vida a moldou. E, por sua vez, sentir como todas as suas vivências se projetaram na sua música. Interessava-me também dar conta da imensa projeção internacional, a diversidade dos espaços musicais em que se movimentou, isto sem esquecer, apesar das suas melancolias e alguns desencantamentos, um sentido de humor muito natural e um sorriso irresistível.

Quantos dias mergulhou no arquivo da RTP?

Seis semanas antes mesmo de escrever o guião. Só com esse corpo de imagens e sons podia saber que história podia contar e como a poderia apresentar… Mas durante a etapa de edição eu e o Miguel Pimenta, que coassina comigo o documentário, e o António Faria, que nos fez a ponte com o arquivo, continuámos a procurar mais e mais imagens. E havia sempre novos tesouros a aparecer. No passado fim de semana ainda mudámos um último plano, antes de dizer… OK, está feito.

Concorda que ficará a ser um documento histórico sobre a fadista?

Isso não me cabe a mim dizer. O que posso referir é que a quantidade e grande qualidade de material no arquivo da RTP é matéria prima para que outros autores possam encontrar ali mais histórias para contar ou modos alternativos de o fazer.

Que memórias guarda de Amália Rodrigues?

Pessoalmente? De ser uma presença em disco sobretudo na casa da minha Tia Teresa onde eu, logo aos três anos, o que mais queria era passar tardes a ouvir no gira-discos os singles dela e os da minha prima (onde havia Beatles também). Curiosamente sempre morei mesmo muito perto de Amália. Mas profissionalmente nunca falei com ela… Entrevistei figuras com quem trabalhou (como o Hugo Ribeiro, o técnico de som que a gravava na Valentim de Carvalho), mas nunca Amália… Este documentário foi como fazer finalmente e a entrevista virtual que nunca tinha acontecido na minha história real como jornalista.

Era ou é fã?

Nuca uso a palavra fã… Tem sempre uma carga de emoção que abafa a razão… Prefiro sempre dizer admirador. E aí sim, é uma das figuras da história da música (de todos os géneros e tempos) que mais admiro. E é daquelas de quem coleciono os discos (mas aí sem chegar aos calcanhares do meu amigo Ramiro Guiñazú, que escreveu o livro ‘Amália no Mundo’, sobre a sua discografia).

O que é que a Amália tinha para ser tão acarinhada lá fora, nomeadamente em França ou Itália?

Além da grande voz era inteligente e carismática. E percebeu cedo o que era comunicar para os outros. Lá fora abriu o seu repertório de palco à música espanhola, mexicana, italiana, francesa, etc… Ao folclore… Isto sem nunca esquecer o fado… Mas como consequência dessa abertura de horizontes também o fado acabou por ganhar (e muito).

8 – Este é um dos trabalhos de uma vida?

É um dos trabalhos de que mais gostei de fazer para televisão. Mas não chegou para superar o que foi fazer, durante um ano de trabalho, o Festival Eurovisão da Canção Lisboa 2018, com uma equipa incrível. Esse continua no primeiro lugar do top.

9 – Acha que as gerações mais novas estão a par do fenómeno mundial que foi a artista?

Creio que todas as gerações podem estar sempre a aprender. Mesmo os mais velhos que a seguiam nos anos 50, 60, 70, certamente aprenderam muito agora ao ler o brilhante livro do Miguel Carvalho “Amália – Ditadura e Revolução”. Os mais novos, por sua vez, tiveram uma boa ponte lançada há um ano no disco ‘Bairro da Ponte’, do Stereossauro, que juntava vários samples de discos de Amália… Este documentário espero que sirva para (re)encontrar Amália… Para uns será uma coleção de memórias, para outros um momento de descobertas. Mas espero que consiga ser, junto dos que a vão descobrir, um momento para lançar futuras vontades em querer saber e ouvir mais. Essa é a magia das histórias: abrem a nossa curiosidade.

A escolher um fado de Amália, qual elegeria?

Difícil. Tão difícil… E há mais do que fado entre a música de Amália de que mais gosto. Acho o ‘Espelho Quebrado’ uma canção superlativa. Arrepio-me sempre que escuto o ‘Obsessão’, o ‘Medo’… E tenho vontade de andar aos pulos com o ‘Fadinho da Ti Maria Benta’ ou o ‘Senhor Extraterrestre’ (e deste lembro-me de a ver no ‘Passeio dos Alegres’). Mas gosto muito das ousadias como o ‘Aranjuez Mon Amour’, o ‘Inch Allah’, o folclore com orquestra, o EP dedicado a Camões, a noite de tertúlia com Vinicius de Moraes, o disco de jazz com Don Byas ou a aventura medieval com Ary dos Santos e Natália Correia…

Mudando de tema: acha que para o ano já haverá condições para o Festival da Eurovisão?

Espero que sim. Mas não posso falar sobre o futuro…

Partilha muitos vinis nas redes sociais. Que discos anda a ouvir neste momento?

Além de Amália (sim, escuto muito a fundo as obras dos artistas quando faço um documentário, um especial na rádio ou um artigo de fundo), tenho escutado os novos álbuns de Paul Weller, Rufus Wainwright, Bob Dylan e muita eletrónica ambiental… Ao fim do dia gosto de pegar num disco menos recente e pô-lo a tocar. As capas que vou publicando nas redes sociais são habitualmente o retrato da banda sonora do que está a ser escutado.