No dia em que a Eurovisão portuguesa inaugura oficialmente, com a cerimónia de abertura, o presidente da RTP não tem dúvidas que esta é uma “grande oportunidade, para projetar Portugal e para afirmar as capacidades técnicas e criativas” da empresa. Em entrevista à N-TV, Gonçalo Reis acredita na imagem “sofisticada” de Isaura e Cláudia Pascoal e afirma que na final “é possível esperar tudo”.
Entrevista: Nuno Azinheira
Aí está a tão desejada Eurovisão em Portugal. Confesse lá: há um ano, na noite de 13 de maio, quando Salvador Sobral ganhou em Kiev, qual foi o seu primeiro pensamento? Deitou as mãos à cabeça?
O meu primeiro pensamento foi: é mesmo bom ganhar! E é bom que Portugal se habitue a vencer competições internacionais, na música, no entretenimento, no desporto.
Porquê?
Porque isso altera a forma como somos percecionados a nível global. É importante que não sejamos meros figurantes, aqueles que estão de corpo presente, mas que sejamos concorrentes ativos, considerados a sério, com uma palavra a dizer, com possibilidades de chegar, ver e vencer. E, claro, fiquei contente por mais uma vitória nacional com presença da RTP. Essa noção de que a RTP está sempre lá nos momentos decisivos orgulha quem trabalha nesta casa.
Mas não pensou na trabalheira e no custo de uma operação destas?
Imediatamente a seguir ao que lhe referi, veio a responsabilidade de organizar o festival do ano seguinte, em Portugal. Nunca olhei para isto como um fardo, antes como uma grande oportunidade, para projetar Portugal e para afirmar as capacidades técnicas e criativas da RTP.
O último ano tem sido de trabalho intenso de vários profissionais da RTP. Aqui chegados, que balanço faz quando olha para trás?
Faço um balanço muito positivo. E deixe-me dizer que a própria direção da EBU/Eurovision também o faz e não perde ocasião para o afirmar. Conceber e executar operações de hostbroadcasting é uma tradição da RTP em grandes eventos, mas este é de facto bastante especial. Tem uma complexidade técnica, um padrão de exigência, um âmbito verdadeiramente global que de facto veio testar as nossas competências ao limite.
A que atribui esses elogios que têm sido feitos pela organização internacional?
Planeamento, planeamento, planeamento: julgo que foi este o fator decisivo. Levámos a sério os cadernos de encargos desde o princípio, definimos um conceito com personalidade e que afirmasse as características de Portugal e de Lisboa, trabalhámos em parceria com uma série de entidades (CML, Turismo, outros), reunimos equipas criativas e confiámos nos profissionais. Não tenho outra chave para realizar bons projetos.
Acha que esta Eurovisão portuguesa vai estar à altura de outras organizações internacionais?
Sem dúvida. Temos muito boas reações e o tempo já está a decorrer. O interesse dos 1.600 jornalistas internacionais acreditados e dos cerca de 500 bloggers que já estão em Lisboa tem sido extraordinário e as mensagens positivas que estão a passar para todo o mundo estão à vista. Temos o acompanhamento dos próprios responsáveis da Eurovisão instalados há semanas no Parque das Nações que estão encantados com o desenrolar das operações. O palco é extraordinário, os locais onde decorrem os eventos (Praça do Comércio, MAAT) são icónicos.
Tudo isso mediatiza ainda mais o certame e o próprio país…
Sim, claro. A presença do Eurovisão 2018 nas redes sociais em todo o mundo está neste momento 190% acima do comparável neste calendário no ano passado, em Kiev. Temos todas as condições para realizar um festival de grande nível. Vamos ver como corre a semana dos eventos em si, há sempre os imponderáveis, o impacto dos diretos, claro, mas diria que os dados estão lançados e não temos nada a temer.
Para esta aposta foi preciso tomar opções estratégicas, como por exemplo, “perder” a Liga dos Campeões. Foi uma opção difícil?
Este é um evento único, com enorme alcance, que representa um esforço enorme. Terá um grande impacto para projetar Portugal, e cabe à RTP organizá-lo, é um facto. Temos de fazer uma gestão muito cautelosa do ano de 2018 e tenho bem presente que o património de equilíbrio económico que a RTP conseguiu nos últimos anos deve ser mantido. Cá estaremos para encontrar as eficiências possíveis e para fazer as opções necessárias. Mas, já agora, em relação à Liga dos Campeões, nós limitámo-nos a não concorrer aos preços anteriores. Vamos ver como acaba esse jogo. Sejamos prudentes.
Mas organizar uma Eurovisão é um grande investimento financeiro, não há como negar…
Sim, é um investimento muito elevado, para os padrões nacionais, claro, pois os requisitos técnicos não são definidos por nós, obedecem a padrões que de facto não são os nossos habituais.
Mas 20 milhões de euros, mesmo que seja a Eurovisão mais barata de sempre, e que à RTP ‘só’ caibam 20% dos custos… mesmo assim é muito dinheiro.
Sim, insisto, para os padrões portugueses, é. Mas é preciso ter noção que este é o maior espetáculo musical do mundo. Será visto por mais de 200 milhões de pessoas, chegando aos mercados mais relevantes para Portugal e com um forte peso dos públicos jovens. E já dissemos, e voltamos a garantir: será o Eurovisão mais económico da última década. Ou seja, fizemos tudo o que havia a fazer para gerir os custos de modo eficiente. E também trabalhámos muito do lado das receitas. Ser o operador público é mesmo isto, ao contrário dos operadores privados, nós não escolhemos os projetos em função da sua rendibilidade, estamos ou não presentes em função do interesse nacional. E aqui o interesse nacional existe. Logo a RTP diz presente e realiza o seu trabalho. Faz parte do contrato que temos com os portugueses.
Vêm aí as semifinais e depois a grande final: serão grandes espetáculos de televisão?
Serão magníficos espetáculos de televisão, com vídeos filmados em Portugal que irão promover o nosso território, com atuações dos 43 países participantes e de músicos nacionais que farão números especiais, com momentos de humor, com as apresentadoras mais bonitas do mundo, e com algumas surpresas.
Tem tido tempo para ver ensaios?
Quase todos os dias passo na Altice Arena para ver as operações e os preparativos. É contagiante. Vejo as nossas pessoas que estão a 200%, tecnicamente deveriam estar cansadas, mas vejo-as contentes. Estes projetos são assim. Quando passo pelo palco, pela arena, vejo os ensaios que estão a decorrer em cada momento. Ontem vi a israelita, já apanhei os intérpretes da Estónia, Ucrânia, Chipre, Austrália; também os vejo circular pelas conferências de imprensa, é todo um mundo.
O que espera do nosso O Jardim, da Cláudia Pascoal e Isaura?
Acho que têm identidade e têm uma presença sofisticada. Espero tudo. Dos concorrentes portugueses hoje em dia podemos esperar tudo. Isto mudou mesmo!









