Lisa Sanders foi o “cérebro” por detrás do premiado drama “Dr. House”. Agora, a sua aclamada coluna no “The New York Times” vai transformar-se numa série documental da Netflix. A N-TV entrevistou a médica norte-americana que pode muito bem ser o Sherlock Holmes da medicina.
ENTREVISTA: Carolina Morais
A coluna que escreve para o “The New York Times”, “Diagnosis“, vai ser transformada pela Netflix numa série documental. Seis anos após a despedida de “Dr. House”, onde trabalhou durante oito temporadas, como é voltar a ser médica em televisão?
Esta série vai ser muito diferente de “Dr. House”. Adoro o Hugh Laurie, adoro o elenco, o argumento é fantástico e adoro a série. Afinal, o que há para não gostar? Mas esta nova série é uma oportunidade de captar o que realmente acontece.
Em “Dr. House”, toda a gente que adoecia era incrivelmente bonita e os médicos diziam piadas. Mas qualquer pessoa que vá ao médico vê que as coisas não são assim. Nem devem ser. Por isso, esta série vai ser uma forma de mostrar, do ponto de vista do paciente, como é não ter um diagnóstico e procurá-lo. É uma série focada na experiência do paciente.
É claramente fascinada pelo processo de diagnóstico de uma doença. Porquê? A maior parte dos médicos parece ter maior interesse na fase de cura.
Encontrar a cura significa ter o diagnóstico correto e eu tenho mais interesse nesse passo. É um passo, por vezes, complicado. Mas tenho interesse em perceber o que acontece quando o diagnóstico é errado, quando é correto, e como tudo isso funciona. É como se fosse uma história de detetives.
É curioso dizer isso, porque sei que é uma grande fã de Sherlock Holmes. Olha para si própria como o Sherlock Holmes da medicina?
Não! [risos] Porque, na verdade, não resolvo a maioria dos casos sobre os quais escrevo. Esses casos são resolvidos pelos Sherlock Holmes de todo o país. São médicos que fazem diagnósticos fantásticos e que depois não recebem o devido crédito nos comentários à minha coluna. Esse é um dos problemas. Errar parece ser o foco das pessoas, mas o interessante é como alguém acerta depois de outros terem falhado.
Hoje em dia esse parece ser o problema com quase tudo – e isso vê-se, especialmente, nos comentários “on-line”: as pessoas focam-se apenas no que é negativo e esquecem as coisas boas.
Sim. Infelizmente, isso é muito verdade.
Ainda assim, é recompensador sentir que já ajudou várias pessoas ao longo dos anos com esta coluna?
Não sei se ajudei assim tantas pessoas. Mas uma ou duas vezes por mês recebo um “e-mail” a dizer: ‘Obrigada! Devido a este artigo, falei com o meu médico e ele foi capaz de me diagnosticar.’ Isso é engraçado, mas não sei o que acontece às restantes pessoas. Acho que a maior parte das pessoas que lê a minha coluna está interessada no tipo de pensamento que é necessário para fazer um diagnóstico e naquilo que por vezes acontece e que nos desvia do diagnóstico certo.
No texto que publiquei na semana passada, um homem com uma doença rara que o faz ter febre muito alta vai às urgências. Ele pensa que tem gripe, o médico pensa que ele tem gripe, mas não tem – isso aconteceu durante de uma epidemia de gripe no país. É muito difícil encontrarmos uma coisa quando estamos à procura de outra. Por isso, estou muito interessada nas dificuldades que os bons médicos têm. Médicos que poderiam ter feito um diagnóstico certo, mas não fizeram devido a algo que aconteceu no processo.
Para mim, vai sempre existir um conflito entre a resposta óbvia e a resposta certa. Mas, atenção, esse não é o caso na maior parte das vezes. Quase sempre, quando tens um problema e vais ao médico, ele descobre o que se passa, dá-te os medicamentos certos ou simplesmente tranquiliza-te – que, na minha opinião, é um ótimo medicamento –, vais para casa, ficas melhor e nunca mais pensas nisso. Mas eu não escrevo sobre esses casos.
Qual é o processo de trabalhar num caso como o que referiu? As pessoas entram em contacto consigo através do “The New York Times”?
O caso deste senhor veio, na realidade, de uma médica amiga minha, que me disse que tinha um caso fantástico de febre da carraça – que era o que esse senhor tinha realmente – e que ele estava disposto a falar comigo.
Quando os médicos me abordam com boas histórias, devido às leis dos EUA não podem passar-me qualquer informação pessoal dos pacientes. Então, peço-lhes para falarem com os pacientes e para lhes pedirem autorização para eu falar com eles. Quando os pacientes dão permissão, assinam um formulário, eu falo com eles, falo com o médico – quando possível –, olho para os registos médicos e depois conto a história – primeiro, do ponto de vista do paciente e depois do ponto de vista do médico.
Quanto à transição da sua coluna do jornal para a televisão, foi a Netflix que entrou em contacto para demonstrar interesse em produzir uma série?
Não. Há um produtor maravilhoso e brilhante em Nova Iorque que é o Scott Rudin. Já trabalhou em televisão, em filmes, em teatro e é extraordinário. Ele abordou o “The New York Times” e disse: ‘Acho que esta coluna daria uma ótima série.’
Na verdade, ele nem sequer estava a falar da coluna que escrevo atualmente, mas sim de uma outra que escrevi durante seis anos [entre 2010 e 2016] e que se chamava “Think Like a Doctor“. Nessa coluna, eu apresentava um caso já resolvido, mas parava de o contar mesmo antes de revelar o diagnóstico. Depois perguntava aos meus leitores: ‘O que acham que este paciente tem?’ Centenas – às vezes milhares – de pessoas escreviam-me a partilhar os seus pensamentos sobre o caso. No dia seguinte, escrevia a resposta correta.
Foi essa ideia de “crowdsourcing” que intrigou o Scott Rudin. E é isso que estamos a fazer na série da Netflix. Temos casos que estão por resolver há anos, mas começamos a contar a história do início e as pessoas escrevem-nos a dizer qual acham que é o diagnóstico. Percorremos as respostas, fazemos uma seleção e passamo-las ao paciente e ao seu médico. Depois acompanhamos o processo a partir daí. Será que alguma das sugestões estava correta? O que é que o médico descobre?
Quando é que a série será disponibilizada na Netflix?
No próximo verão.
“Podes ser muitas coisas enquanto médico, mas não podes ser estúpido.“
Falou há pouco nos aspetos mais irrealistas de “Dr. House”. Diria que não é uma boa série para estudantes de medicina?
Acho que se gostam, devem ver. Mas como o Gregory House era tão terrível a interagir com os pacientes, as pessoas muitas vezes diziam-me, quando a série estava no ar: ‘Não te preocupa que os estudantes de medicina aprendam as coisas erradas ao verem o House?’ E o que eu achava, e ainda acho, é o seguinte: se alguém pensa que está a aprender como as coisas realmente são através da televisão, deve ser expulso da escola de medicina. É alguém demasiado estúpido para ser médico. Podes ser muitas coisas enquanto médico, mas não podes ser estúpido. Se alguém é burro o suficiente para pensar que é correto comportar-se como o House, por favor afastem-no da profissão. Não pertence aqui.
Alguma vez conheceu um médico como ele?
Oh não! Felizmente. Seria algo terrível. Enquanto eu crescia, a grande série médica da televisão era “Marcus Welby”, que era um médico simpático, mais velho e era um herói. Mesmo nessa altura, a medicina dependia de equipas de médicos, enfermeiros e assistentes. Não existe nenhum médico que brilhe sozinho neste mundo. Todos temos de trabalhar com outras pessoas. Por isso, se fores um imbecil como o House, não sejas médico. Vai fazer outra coisa, como investigação. Vai para um sítio onde só interajas com ratos de laboratório.
Pelo contrário, diria que esta nova série da Netflix será útil e desafiante para médicos e estudantes de medicina?
Espero que sim. Primeiro, acho que vamos ensinar como é que os médicos lidam com a informação dos pacientes. E vamos ajudar a perceber quão terrível é não obter resposta quando perguntamos ‘Doutor, o que se passa comigo?’. É mau para o paciente ouvir a resposta ‘Não sei’ e é mau para o médico que tem de a dizer. Mas, por vezes, é isso que acontece.
Além disso, acho que vai ser muito entusiasmante para os espectadores conhecerem as hipóteses que vêm do “crowdsourcing”. Vale a pena notar que isso é algo que requer uma enorme generosidade. As pessoas que nos respondem com os seus diagnósticos perdem algum tempo a pensar sobre estes pacientes e isso é tudo um presente para nós. Não são pagas por isso, não existe recompensa para quem acertar na resposta. É tudo um ato de pura generosidade e isso, para mim, é fantástico e até meio alucinante.
Decidiu estudar medicina quando já tinha 36 anos e, antes disso, foi jornalista. O que a fez mudar de vida tão radicalmente?
Bom, fazer notícias em televisão – tal como fazer “Dr. House” – é divertido. Muito divertido. Mas cheguei a uma altura na minha vida em que queria fazer algo que fosse mais do que apenas divertido. Queria fazer algo com significado e importante. E eu não achava que a televisão fosse importante o suficiente para me fazer sentir que estava a contribuir para o mundo à minha volta.
Sabe, tenho tido imensa sorte ao longo de toda a minha vida. Claro que trabalhei arduamente e blá, blá blá. Comecei do nada, blá, blá, blá. Mas também tive imensa sorte. Qualquer pessoa bem-sucedida tem de ter tido muita sorte. E eu sempre quis retribuir a um mundo que foi tão bom para mim. Já tinha feito cobertura da área de medicina e pareceu-me ser a direção certa.
Ganhou, inclusive, um prémio Emmy pela cobertura do furacão Hugo, em 1989, para a CBS News. Foi um prémio que em vez de lhe dar vontade de continuar no jornalismo, teve o efeito contrário?
De certa maneira sim. Mas, por falar em sorte, esse Emmy foi a coisa mais sortuda que alguma vez me aconteceu. Estava a trabalhar no programa de notícias da manhã, “48 Hours”, quando o furacão estava a vir em direção aos EUA. E aconteceu que o furacão atingiu a minha cidade, Charleston, durante a nossa emissão. Estávamos no sítio certo à hora certa e mostrámos um furacão de categoria 5 a atingir uma das cidades mais bonitas da América. Isso é sorte [risos]. Mas sei reconhecer que não mudei a vida de ninguém para melhor ao fazer esse programa. Foi interessante, foi educativo, mas na verdade não ajudei ninguém.
Quando olha para toda a sua carreira, aquilo que a faz sentir orgulhosa é a medicina?
Quando acabei a minha licenciatura [em Inglês] tive muitos trabalhos e vi que muitas pessoas mais velhas, na casa dos 40, estavam apenas a passar tempo até poderem reformar-se. Lembro-me de pensar: ‘Nunca vou ser essa pessoa. Nunca vou adiar fazer algo que amo. Nunca vou manter um emprego apenas como forma de fazer dinheiro.’ Sempre quis ter um emprego que fosse exatamente aquilo que eu queria fazer.
Quando a televisão deixou de ser isso para mim, olhei à minha volta para perceber o que me fazia feliz. E vi a medicina. Não tinha a certeza, mas achei que a medicina seria o caminho certo. Hoje sei que é. Mas atenção: trabalhar em televisão tornou-me uma médica melhor. Não acho que tenha desperdiçado a minha primeira carreira. Ensinou-me muitos valores e lições importantes que uso em medicina.
Agora tem o melhor dos dois mundos: é médica e continua a trabalhar em televisão.
Exato. A televisão é, tal como a escrita, nada mais do que uma forma de contar histórias. E isso sempre foi importante para mim.









